Arma Zen do Brito: Sombras do passado – um filme sobre o olhar

Baseado na obra literária “Red Dust”, de Gilian Slovo, “Sombras do Passado” conta a saga de Alex Mpondo (Chiwetel Ejiofor), negro e membro do parlamento sul africano. Preso e torturado durante 31 dias nos tempos do apartheid por militar no braço armado da resistência negra, o político retorna à sua terra natal para defender os interesses de Steven Szela, amigo com quem fora preso e que desaparecera no quarto dia de “interrogatórios”.

Hendrix (Jamie Bartlett), que torturou Mpondo na prisão, está condenado pela morte de outra pessoa, mas confessa ter mantido o parlamentar preso sob tortura, mesmo sem ter sido denunciado. Ocorre que ele é julgado pelo Tribunal de Verdade e Reconciliação, um dispositivo jurídico criado na África do Sul após o fim do apartheid para a anistiar os brancos acusados de cometer atrocidades durante o regime separatista. Para obter o perdão, o acusado deve a contar toda a verdade. As vitimas podem se opor ao pedido de anistia acusando omissões e mentiras, as quais o acusado deverá confessar e esclarecer para obter a liberdade. É aí que Mpondo se torna peça fundamental no julgamento. Como Hendrix confessou tê-lo torturado, ele tentará ligar o ex-policial ao desaparecimento de Szela, para tentar descobrir quem o matou e onde ele está enterrado.

O tribunal de Verdade e Reconciliação é um instrumento real e polêmico, posto que julgue criminosos para absolvê-los. No filme, um teatro abriga as audiências, o que representa o modo como o povo africano compreende o dispositivo legal. Mas o teatro, como as artes em geral, também dirige e deriva forças poderosas, e “Sombras do Passado” nos mostra o quanto elas podem ser intensas. Na medida em que a trama se desenvolve, a necessidade de falar sobre o passado retira heróis e bandidos das suas posições originais, descortinando novos olhares sobre a história e o futuro.

Menos ideológicos e mais humanistas, os olhares despertados pelo Tribunal de Verdade e Reconciliação chamam a nossa atenção para a emergência da verdade e do perdão. Esses conceitos, juntos, trabalham ao mesmo tempo pelo não esquecimento e pela superação dos traumas, como nas palavras de Arcebispo Tutu que encerram o filme: “Após olhar a besta nos olhos e pedir e receber perdão, fechemos as portas do passado, não para esquecê-lo, mas para evitar que ele nos faça prisioneiros.”

É um filme imperdível!

SOMBRAS DO PASSADO

Título original: Red Dust (África do Sul, 2004)
Diretor: Tom Hooper Elenco: Hilary Swank, Chiwetel Ejiofor, Jamie Bartlett, Ian Roberts, Hlomla Dandala, James Ngcobo.
Idioma: Inglês e português
Legendas: Português e inglês
Duração: 110 min. Cor
Distribuidora: California

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