ARMA ZEN DO BRITO: Casa Pelé – Ideias pequenas, grandes Jogadas!

Estátua do Rei Pelé, em Três Corações

No último dia 16 de maio, a capa do jornal “Folha de São Paulo” destacou a conquista do Campeonato Paulista de Futebol pelo Santos. Dia bastante feliz para o Rei Pelé, um dos responsáveis diretos pela permanência do craque Neymar no clube. Em Três Corações, a boa luz prenunciadora do outono entrava pelas grandes janelas da Casa da Cultura e aquecia o ambiente, tranquilizando quase todos os servidores daquela secretaria. Valério Neder, o secretário municipal, era a exceção. Conhecido pelos arroubos autoritários desde que assumiu a pasta, ele tamborilava os dedos na mesa nervosamente, frustrado com o resultado da licitação para a reconstrução da “Casa Pelé”, o primeiro lar do tricordiano e brasileiro mais ilustre do mundo.

Um ano antes, no dia 03 de maio de 2010, Valério e Fernando Ortiz, seu assessor, juntamente com Faustinho e o Sérgio Auad, prefeito e vice, encontravam-se com Pelé em seu escritório na capital paulistana, para tratar do projeto. O Rei, bastante animado com a idéia, perguntou aos visitantes: “Será que a pedra fundamental fica pronta até o aniversário de Três Corações, no dia 23 de setembro?” Faltavam 143 dias para a data, os visitantes se riram, “mas é claro!”. “Então eu irei inaugurar a obra, entende? Está agendado”, prometeu o Rei.
Na viagem de retorno a Três Corações, Fernando era visivelmente o mais feliz com o resultado da reunião. Militante da “causa Pelé” há 17 anos, foi dele a iniciativa do projeto, cinco anos atrás. Cansado do descaso com que as administrações tricordianas vinham tratando o potencial simbólico do seu conterrâneo mais ilustre, em 2006 ele cooptou o apoio de Paulo Gonçalves, então presidente da Associação Comercial e Industrial local, e juntos eles foram a Santos apresentar o projeto para a mãe do Rei. Levaram consigo a arquiteta Débora Pimentel, que naquela visita fez os primeiros rascunhos da casa a partir das memórias de D. Celeste.
Cinco anos depois, agora com o aval do próprio Rei, Fernando rapidamente traçou os próximos passos do projeto. Sugeriu a Valério oferecer a obra da “Casa Pelé” a uma grande empreiteira, ao invés tentar erguê-la com dinheiro público. Cotidianamente, diversas empresas concorrem para ter a marca associada à imagem do maior jogador de futebol de todos os tempos. Ligar-se à sua memória às vésperas de uma Copa do Mundo é um excelente negócio. Com o homenageado comprometido a vir ao lançamento do empreendimento então? Apenas a mídia espontânea gerada pelo evento pagaria a empreitada, inicialmente orçada em aproximadamente r$ 230.000,00.
Para a festa de lançamento da pedra fundamental, Fernando criou o show de “Rei para Rei”, com patrocínio da Nestlé. Naquele ano, Roberto Carlos completava 50 anos de carreira, Pelé 70 anos de vida e a Nestlé 90 anos de existência. Com longa história em Três Corações, patrocinar a festa poderia interessar àquela empresa. Datas redondas, grandes nomes, idéias geniais, mas que tinham um grave defeito: não saíram da cabeça do vaidoso Valério, pecado capital na atual gestão da Casa de Cultura tricordiana. Ao que consta, a secretaria nunca tentou algo do gênero. “Quando apresentei as idéias, o pessoal da prefeitura riu da minha cara”, conta Ortiz.
Sem possibilidade de dialogar e insatisfeito com os rumos que o projeto tomava, Fernando entregou seu cargo. Faustinho tentou persuadi-lo permanecer com outras ocupações. Resposta: “Não to aqui pedindo emprego: ou cuido e faço pelo projeto Pelé ou vou para casa cuidar da minha vida!”.
Livre das idéias “megalomaníacas” de Ortiz e sem parceiros maiores que o secretário de cultura a prefeitura conseguiu no Ministério do Turismo a verba para o projeto e abriu a licitação. Publicado no jocoso site da administração municipal e no glorioso “Diário dos municípios” o edital para a reconstrução da casa do brasileiro mais famoso do mundo atraiu 3 concorrentes. E foi vencido pela empresa de Márcio “Ribiti”, conhecido servidor da prefeitura tricordiana.
Como a lei de licitações brasileira impede a participação de empresas ligadas a servidores nos editais públicos, foi  preciso anular aquele processo e propor um novo. Emaranhado em pequenos interesses como esse, o lançamento da pedra fundamental da Casa Pelé ainda não aconteceu. Passou em branco a data reservada pelo Rei Pelé para revisitar sua cidade natal após 27 anos de ausência, e o aniversário de Três Corações em 2010 foi comemorado com o tradicionalíssimo desfile de fanfarras escolares.
No dia 16 de maio último, enquanto a imprensa esportiva mundial especulava se Neymar se tornará o novo Pelé, veio do setor de licitações da prefeitura tricordiana o grande drible da semana. O resultado do segundo edital de reconstrução da “Casa Pelé” havia sido publicado. Supostamente, agora encoberto pelo nome de um sócio, Márcio “Ribiti” teria vencido também a nova rodada, motivo da irritação de Valério naquela manhã de sol. Testunhas contam que, sem saída, o secretário prometeu acompanhar com especial rigor cada etapa da obra, para evitar novos problemas. O que não significa que ele não seja solidário com as suspeitas em torno da legitimidade do processo. Ocorre que já não havia mais tempo para outra licitatação de acordo com o cronograma da fonte financiadora do projeto, a prefeitura tricoronária precisou optar entre investigar a situação ou, finalmente, construir a “Casa Pelé”. O resultado final do edital foi homologado no dia 30/05.
Terá sido essa a melhor jogada? (por Lelo de Brito)

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