Arma Zen do Brito: Bastidores de um golpe militar no Brasil.

Palácio do Piratini, Porto Alegre, 1961.

– Olha general, o senhor não passa de um golpista filho da puta!

Com esse insulto, Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, encerrou a ligação para Arthur da Costa e Silva, comandante do IV Exército, no Recife. O gaúcho tentava, em vão, influenciar o general a se posicionar contra o veto dos ministros militares a posse do vice-presidente, João Goulart (Jango), substituto legal de Jânio Quadros, que havia renunciado.

Poucas horas depois do telefonema, Odilo Denys, ministro da Guerra, ordenava que o comandante do III Exército, Gen. Machado Lopes, invadisse o Piratini e depusesse o governador à bala. Nesse dia, Jango estava em missão diplomática na China, após visitar a União Soviética, as duas maiores potências comunistas daqueles tempos. Seu cunhado, Brizola, vivia aos sopapos com os militares. O confronto sangrento começava a se desenhar.

Sabendo que a situação era grave, o governador gaúcho chamou a parte da imprensa que lhe era simpática para incitar o povo a apoiá-lo. Quase num passe de mágica, os porões do Piratini se tornaram a nova casa do jornal Última Hora e da Rádio Guaíba. Com um discurso rápido e inflamado, Brizola denunciou o plano dos militares e convocou a população para o confronto. As transmissões da “Cadeia da Legalidade”, decisivas para essa história, começavam.

Não demorou a chegar ao Palácio a notícia de que uma coluna de 20 tanques M-3 armados com bazucas e metralhadoras estava a caminho. Os legalistas viram seus quadros se reduzirem de 300 para 50 pessoas, o que não intimidou o governador. Sem pestanejar, ele ordenou a distribuição de 3.000 revólveres entre a população. Parte considerável do arsenal virou decoração de parede imediatamente.

Com seu exército brancaleônico de assessores e jornalistas entrincheirado no Piratini, Brizola já antevia o pior, quando Marcos Faerman apareceu com boas novas. Marcão e um grupo de estudantes interceptaram o jipe do major Leo Etchengoyen há poucas quadras dali, e numa prosa informal e rápida, descobriram que a movimentação toda não passava de uma manobra de intimidação. Gen. Machado Lopes, na verdade, estava em cima do muro.

A indecisão do III Exército foi percebida rapidamente pelo Gen. Orlando Geisel, chefe de gabinete do ministro da Guerra, que ordenou um ataque imediato da Força Aérea Brasileira contra o Palácio gaúcho. Pela Rádio Legalidade, Brizola incentivou os porto-alegrenses a formar um escudo humano em torno da sede do governo, e momentos depois agradecia a presença de tantos. Fosse verdade ou não, as notícias provocaram uma rebelião interna na FAB. Liderados pelo capitão Alfredo Ribeiro Daudt, tenentes e sargentos, especialmente os que tinham família na região do Piratini, trabalharam duro para esvaziar os pneus dos aviões da Força Aérea. Como nunca antes se vira na história de um país, o ataque foi sabotado pelos combatentes.

Mas tudo indicava que Campanha da Legalidade não terminaria bem. Um assessor de Brizola procurou dom Vicente Scherer, arcebispo local, atrás de uma autorização para instalar metralhadoras nas torres da igreja ao lado do palácio, pedido recusado prontamente. O cardeal preferia não tomar partido. Minutos depois, na praça em frente ao QG da resistência, dois jovens jornalistas ouviam os comentários sobre a posição da igreja. Eles eram Tarso de Castro, menos de 20 anos, e Flávio Tavares, de 27. Animados pela faceirice que só as grandes amizades inspiram, os repórteres do “Última Hora” resolveram cometer uma travessura, sem imaginar as consequências que a brincadeira teria, armaram um trote.

Tarso mirabolou a história e Flávio, grande imitador, ligou para a Cúria e pediu para falar com o arcebispo. Reproduzindo o sotaque carioca do Gen. Machado Lopes e os modos educados, mas incisivos, dos militares, ele informou a dom Vicente que o III Exército decidiu apoiar o governador gaúcho na questão, por ser favorável à paz e à legalidade. E pediu que o cardel fosse ao quartel em uma hora, para apresentar a posição da igreja. Em seguida, agora imitando o sotaque alemão de dom Vicente e tranquilidade dogmática dos religiosos, Flávio ligou para o quartel-general solicitando um encontro com Machado Lopes, em uma hora, para apresentar a opção da igreja pela legalidade e paz e ouvir o posicionamento III Exército. Da praça, Tarso e Flávio viram o Ford 1941 preto do arcebispo sair em direção ao quartel. Até hoje ninguém sabe o teor da conversa entre o religioso e o militar, mas o fato é que no dia seguinte o III Exército anunciou estar ao lado dos legalistas. Seria o começo da virada?

Naquela altura, Jango havia retornado da China e estava no Uruguai tentando decidir se a sua entrada no Brasil era segura. Foi de lá que ele frustrou seus corolários, aceitando um acordo conciliatório com os militares. Dias depois ele seria empossado presidente, mas com o país sob um regime parlamentarista. No Piratini, jornalistas e estudantes decepcionados rasgaram fotos de João Goulart no dia da posse. Quem mandava no país a partir dali era o primeiro ministro, Tancredo Neves. (por Lelo de Brito)

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