Arma Zen do Brito: Sobre o tropicalismo e o trânsito

Nenhuma manifestação cultural representa tão bem o Brasil quanto o Tropicalismo. Nos idos de sessenta a TV chegava ao Brasil para dar os braços ao rádio e ao cinema e incluir o país definitivamente no século XX, o da cultura de massas. Vinicius de Moraes e Chico Buarque, paladinos da palavra escrita, bateram a porta da biblioteca com raiva e torceram o nariz para novidade.

Mas da Bahia vinha uma turma que não conhecia Platão e Aristóteles. Caetano Veloso trocara Santo Amaro por Salvador, onde aprendeu a tocar violão com Gil, e juntos eles vieram para o Rio de Janeiro. Em Irará nasceu Tom Zé, o mais paulistano dos paulistanos, que chegou à terra da garoa contando como viu o primeiro milagre de sua vida: após infância penosa indo buscar água diariamente na Fonte do Estado, na adolescência instalaram uma máquina de teletransporte na cozinha da sua casa, era o diabo. Sua mãe girava a mini-manivela e pumba: a Fonte do Estado jorava na pia. Novo giro na maquineta e pam: a Fonte do Estado já não estava na sua casa. Água encanada era uma novidade assombrosa para quem vivia no século dezesseis.
Vindos de outro tempo e espaço foi essa turma quem abriu o peito para a TV e com ela inventou o tropicalismo, movimento cultural que misturou a emergente cultura pop estrangeira com as tradições arcaicas brasileiras para nos legar obras que ajudaram a sociedade a se aprimorar, a saltar etapas culturais. Com o tropicalismo, a gangorra da modernização nacional ganhou expressão estética: quem parece estar se adiantando pode estar se atrasando e vice-versa…
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Essa lei tropicalista se faz presente hoje no trânsito nosso de cada dia. Enquanto a evolução tecnológica troca o físico pelo simbólico, com cancelas substituídas por faróis, controladores de velocidade físicos cedendo lugar para os eletrônicos, o desabrochar econômico do país entupe as ruas de carros particulares e, à falta de espaço e educação, o trânsito é cada vez mais lento e violento. Sintoma maior do nosso atraso cultural, as faixas de pedestre, antes pintadas no chão, são agora transformadas em lombadas altas e longas para frear a medievalidade dos motoristas. Somos mesmo os primitivos tecnizados.
O histórico desleixo no trato com a vida social e pública explica que os brasileiros se esforcem para pagar educação, saúde e transporte particulares ao invés de lutar pela qualidade da oferta pública desses serviços. E nos ajuda a entender porque os nossos motoristas, pensando estarem se adiantando na gangorra social, diariamente entrem em seus carros e saiam pelas ruas a participar do espaço público como se estivessem em regime de exceção, com imunidade parlamentar sobre rodas. Maus motoristas e  políticos brasileiro agem igual quando dirigem.
E as faixas de pedestre convexas que pipocam aqui e acolá são nossas novíssimas soluções neo-tropicalistas! (por Lelo de Brito)
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