Arma Zen do Brito: Tancredo Neves, Tiradentes. Outro Preto, Cagliari

Sobre os 26 anos da morte de Tancredo Neves.

 Está em fase de finalização o documentário “Tancredo: a travessia”, do cineasta Silvio Tendler, com lançamento previsto para 2011. Leio a notícia em um agradável café na Praça Tiradentes, em Ouro Preto-MG, onde há 219 anos fora exposta a cabeça do alferes da liberdade. A cena me faz pensar nas harmonias que regem a vida de um povo se fazendo passar por meras coincidências.

O lago - Tarsila do Amaral

Tancredo Neves e Tiradentes nasceram em São João Del Rey-MG e morreram no dia 21 de abril, mês no qual saudamos a memória de São Jorge Guerreiro. Não por acaso, “abril é o mais cruel dos meses” tornou-se o maior verso do poeta norte-americano T.S Eliot. Ao final de abril de 1720, quiçá no dia 21, um acontecimento aflitivo e revelador abalou Cagliari, então capital do Reino da Sardenha (atual Itália).
Saint-Remys, o vice-rei, dorme, afrontado pelas deliciosas especiarias trazidas de todas as partes do mundo pelos mercadores e acariciado pela brisa do Mediterrâneo que sopra incessantemente. Dorme e no sono é visitado por um sonho perturbador, em que seu pequeno reino é dizimado pela peste.
Ao despertar, o vice-rei lembra-se dos boatos sobre a peste asiática e toma conhecimento do navio Grand-Saint-Antoine, que há um mês partira de Beirute para atracar em Cagliari naquela manhã. Sem pestanejar, Saint-Remys anuncia uma decisão despótica, considerada insana pelo seu povo: ele ordena que o navio visitante se faça à vela para longe da ilha, sob pena de ser recebido a tiros de canhão.
Influenciado pelo sonho o vice-rei suportou a ironia, o sarcasmo e o escárnio do povo. Até chegarem as notícias vindas de Marselha, onde Grand-Saint-Antoine fora recebido. A cidade francesa acabou em vão com seu estoque de pestífero, metade da população foi dizimada pela peste. Ao saber que o navio escorraçado pela decisão iluminada do vice-rei levava a morte, Cagliari registrou a história em seus arquivos, onde ela está disponível a quem desejar conferi-la.
A comunicação estabelecida entre Saint-Remys e a peste através do sonho testemunha a ação de forças subterrâneas e magmáticas que tencionam o passado e o futuro discretamente, operando por eflúvios e afetos. Sob o signo delas, Tancredo Neves, mártir da Nova República Brasileira, suportou a doença fatal que o acometeu na véspera de sua posse, em 14 de março de 1985.
A história oficial creditou a uma diverticulite o padecimento do presidente. Versões oficiosas sustentam que ele foi envenenado por militares paranóicos, contrários à democratização. Como profundo conhecedor das paixões e fraquezas humanas, Tancredo sabia que sua morte antes da posse poderia significar a fim do processo de abertura política. Por isto, contrariando todas as previsões médicas (peritos em doenças, o que sabem os médicos sobre a vida?) nosso primeiro presidente civil após vinte e um anos de ditadura militar resistiu incrivelmente por quarenta dias, falecendo em 21 de abril.
Sobrevivendo heroicamente até a data do enforcamento de Tiradentes, Tancredo legou para o povo brasileiro o símbolo forte que o país carecia para assegurar a sua libertação das garras do regime ditatorial. Sua morte exumou, no plano simbólico, energias capazes de movimentar a Praça dos Três Poderes, em Brasília, até a Praça Tiradentes, em Ouro Preto, amalgamando sonhos de liberdade da nação vividos em épocas distintas. Com Tancredo o Brasil viajou pelo tempo e o espaço para buscar nos heróis da luta contra o velho Império as forças indispensáveis à concretização da Nova República. E é inocência atribuir tal fato ao acaso.
Assim como Saint-Remys e a peste, Tancredo Neves dialogou fugazmente com Tiradentes para salvar seu país, nos oferecendo, além da liberdade constitucional, um sinal de que podemos nos reconciliar com o nosso devir, isto é, possuir completamente nossas vidas (incluindo nela a morte). E quando digo vida, não me refiro aos seus aspectos epidérmicos, mas a este centro frágil e turbulento cujo controle nos escapa sempre. (Por Lelo de Brito)

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