Arma Zen do Brito: Moral da vingança – Sete Orelhas e Lampião (Opinião)

Em 1759, no Sul de Minas, Januário Garcia Leal era um Capitão de Ordenanças honesto e pacífico, num tempo em que ser capitão, honesto e pacífico era quase impossível no Brasil, e não rendia memórias douradoras. Nos dias de hoje, o visitante mais desavisado se surpreenderá ao descobrir, na pacata São Bento Abade-MG, uma suntuosa estátua em homenagem à Januário.

Naqueles idos, os capitães-do-mato costumavam decepar uma orelha dos escravos capturados para guardar como troféu. Mateus Luis Garcia, tio de Januário, fez fama por acumular mais de três mil orelhas. Escravos não eram considerados humanos àquela época, violentá-los não significava atrocidade para os cidadãos de bem. Devido a isto, os hábitos cruéis não fizeram de nenhum capitão-do-mato um grande mito.
Desde que as Capitanias Hereditárias foram instituídas no Brasil, por volta de 1530, até 1854, com a publicação da Lei de Terras, o território tupiniquim foi posse do Império. Cumpria aos Capitães de Ordenanças, como Januário Garcia Leal, arbitrar as disputas por divisas, não raras entre os coronéis – meros posseiros, na verdade.
Para o azar deles, os sete irmãos da família Silva decidiram não consultar um Capitão de Ordenanças para discutir os limites da sua fazenda. Segundo a lenda, no ano de 1760 eles assassinaram seu vizinho, João Garcia Leal, irmão de Januário, o pendurando em uma figueira e arrancando-lhe a pele às tiras, fazendo o jovem fazendeiro sangrar lentamente até a morte para que seu sangue demarcasse a divisa pretendida. O local do assassinato é hoje conhecido como Sítio Tira-Couro, em São Bento Abade-MG, onde a sexta floração da famigerada figueira pode ser visitada e diferentes versões dessa história podem ser ouvidas.
Januário teria procurado as forças militares para denunciar os assassinos do irmão, mas como as pelejas entre família eram comuns naquele tempo, sua dor não chamou a atenção das autoridades. Mal sabiam os representantes do império que da sua indiferença nascia um matador implacável, disposto a dedicar sua vida à caça dos assassinos do irmão. A mitologia sul mineira conta que Januário viajou incansavelmente por trinta anos para cumprir a sina de matar os sete Silva´s. De cada um dos irmãos o vingador arrancou uma orelha e com elas fez o macabro colar que ornava seu pescoço quando retornou à São Bento Abade, agora como o temível “Sete Orelhas”.
Talvez porque o caso fora ignorado pela justiça, não há evidências documentais sobre o assassinato de João. Nos papéis imperiais, registros militares de Alfenas-MG oficializam cassação do título de capitão de Januário Garcial Leal e, anos depois, registros policiais de São João Del Rey-MG alertam outros distritos mineiros sobre a atuação de um bando justiceiro, famoso entre os populares por seu líder, Januário Garcia Leal, usar um colar adereçado com orelhas humanas.
Também famosos por desafiar poderosos e autoridades, os cangaceiros foram mitificados como heróis pelo imaginário do povo nordestino, que via neles uma esperança de vencer a opressão, a miséria e o abandono pela força. Entretanto, em 1926 Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, esteve com seu bando em Juazeiro do Norte-BA para receber a benção de Padre Cícero e se encontrar com representantes da Liga dos Coronéis.
Políticos, latifundiários e o clero receberam os bandidos para abençoá-los, dar a eles armas e munições e pedir que Lampião fosse ter com a Coluna Prestes, levante comunista que atravessava o país. Lampião ficou com os armamentos e a benção, mas não atendeu o pedido. Sua única distinção para com os poderosos que financiavam seu grupo era não incomodá-los. E não financiá-lo era o que tornava os demais coronéis seus inimigos. As questões políticas jamais estiveram no horizonte do cangaço.
Pelos registros históricos, nada há que diferencie Sete Orelhas de Lampião. Foram dois bandoleiros de um tempo em que a justiça se fazia com sangue e medo. Mesmo com toda a mística em torno dos cangaceiros, nenhuma estátua em homenagem a eles foi erguida. Ver o Sete Orelhas erigido em São Bento Abade-MG deve nos fazer pensar sobre a persistência da moral da vingança em nossa região. (por Lelo Brito)

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