Arma Zen do Brito: Amor, sexo, água potável e ódio (ficção)

Ainda limpando com as mãos o sono dos olhos, levanto a cabeça e vejo, por entre as pernas, Amin em seu ritual matinal diante do espelho. Aprendi a gostar dela desde o primeiro momento. Um singelo afago nos meus cabelos, por sorte minha e engano dela, nos apresentou. Mesmo envergonhada ela foi tão diligente quanto delicada ao se desculpar. Fui prontamente seduzido por aquele sorriso, paisagem que ainda conserva a força de me comover.

Pintura: Impression, soleil levant - Claude Monet

Os contornos sinuosos do corpo Amin aguçando a toalha branca, quase insuficiente para cobri-la, afastam a minha preguiça. Suas costas têm uma beleza grega, simétrica, como se feitas para acomodar asas angelicais. A pele é lisa, morena, mesmo vista de perto parece desprovida de poros. É excitante tateá-la com as maçãs do rosto, especialmente após o banho, quando ainda nua de cremes e loções cheira a asseio. Numa discreta olhadela Amin me percebe obsceno, o que por charme faz sem parar de passar batom.
Com os olhos lassos, caminho lentamente até ela. Na porta do banheiro, contenho o ímpeto de abraçá-la pelo prazer de observá-la de perto. Amin abre a torneira deixando um abastado jato d’água jorrar, no qual imerge as mãos para depois esparzir água no meu rosto com os dedos, ao mesmo tempo em que deixa a toalha cair. Um calor delirante me toma a face e sem que eu percebesse minhas mãos sedentas já se haviam lançado na direção de Amin.
Tomo-a pela cintura e nos beijamos com sofreguidão. Afago sua farta cabeleira e deixo meu corpo pender sobre o dela, ao que Amin senta sobre o gabinete e abraça-me com pernas e braços. Entre arfares incontidos, um gesto quase imperceptível. Deixo a mão correr pelas costas gregas de Amin e, aproveitando o movimento, fecho a torneira.
Com a água os beijos cessam. Olhos cheios de gravidade, Amin afasta-me com as duas mãos, o que de certo modo me tranqüiliza: uma ofensa verdadeira incita sempre um olhar vazio. Eu tive a certeza de que ela mediria a importância que dou à nossa intimidade pelo gesto que cometi, fazendo-me parecer frio e indelicado. E saber de antemão não me livrou do mal-estar ao ouvi-la dizer.
Fechei a torneira de modo inopinado, assim como sempre apago a luz do cômodo ao sair. Outras mil justificativas me ocorreram, mas a verdade é que desentendimentos como este não se resolvem com imediatas explicações. Bem o sabem os casais, a vida conjugal é ponteada por desencontros mínimos cuja reincidência leva os parceiros a tratá-los no limite da urbanidade.
Saio do banheiro me sentindo nada heróico, procurando me apegar à certeza de que, passado o momento vertiginoso do ódio que nos faz sentir auto-suficientes, afloraria novamente a incompletude em Amin, e ela me procuraria pela casa, desnecessariamente arrependida, sorrindo o riso que invariavelmente me comove. Amin, quando sorri, tem o cacoete de movimentar timidamente o canto da boca, motivo meu infalível enternecinento. O desentendimento ainda me queimava a alma quando Amin me alcançou na sala, desnecessariamente arrependida. Uma brisa fresca entrou pela janela e fez festa nos cabelos dela…

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