Arma Zen do Brito: O pescador Zé Broa e a Sereia mulata

À Paula Bogarim, pela amizade e graça.
Na infância foi recatado e sozinho. Arrastava as sandálias e molhava os pés no orvalho do mato todos os dias de manhã. Habilidoso no desaprender, já era poeta ainda de calças-curtas. Menino-grande emendou a levar os dias pescando embaixo da ponte entre a lavoura e o lugarejo, e nunca mais parou. Assim se fez Zé Broa, o pescador, conhecido por ter o cacoete de ajeitar a franja na testa com a ponta dos dedos, mesmo depois de careca.

Já homem feito, era tão de falar causos que confundia verdade, mentira e invenção. Misturava o certo, o errado e o resto. Ser mineiro é nunca falar sobre isso, dizia. É pesar oitenta e caminhar como se pesasse cento e vinte, que andando assim se adia o fim do dia. “Meia dúzia de lambaris no samburá, meio litro de garapa na cabeça, volto antes que anoiteça”, gostava de cantar essa moda no que ia indo ao rio. Esse viveu na pesca, mas nunca da pesca, nem no fim, lamenta a sua viúva.
Aconteceu numa tarde de domingo. Nem mosca abanava o calor na barranca do rio – sequer os pássaros cantavam. Zé Broa, agachado sobre os joelhos a quase sentar no chão, aderia à paragem do dia, era tão calmo no pescar que parecia solitário. Mas a pasmaceira da pescaria é só aparência, distração para os olhos de quem vê. O pescador vive em vigília, barganhando com os blefes do anzol, preparando derradeira a fisgada. Nessas ocupações discretas o nosso bom mineiro bem dormitava, tardou a se dar conta do incrível adiante de si.
Sobre a pedra preta no meio do leito era uma sereia mulata, que lhe contou, usava sutiã de ouro, mas tinha o coração de lata. Por fascinado com a cena Zé Broa mal ouviu. A sereia era graciosa, manejo mágico, pés de nadadeira bailarina, longa saia justa cravejada de escamas reluzentes, pele mulata molhada, colo aconchegante de mãe d’água, feita de carnes frescas e cheias de viço. O abestamento do pescador foi tamanho que a mulher-peixe se ofendeu, disse mandinga e mergulhou nas águas revoltas do rio, aborrecidíssima.
O encontro despertou a invenção de memórias no lugarejo, e de janela em cochicho, logo brincriaram explicações. Ela era uma sereia infeliz porque acreditava que uns tantos só queriam roubar seu ouro e os outros mais se rirem do seu coração de lata. Fora moça muito admirada nas redondezas por sua formosura e em toda parte acusada de interesseira, e embora nada disto ela tenha imaginado a vida inteira, acabou condenada a sereia por feitiço de ciumeira.
O tempo passando, Zé Broa foi calando, calando. Ninguém perguntasse a razão, talvez nem tivesse. Podia ser a mandinga da sereia, ninguém sabia se ela era bicho de Deus ou do Outro. A cada dia mais amuado, esmudecido, no seu último dizer o pescador decidiu ficar sozinho junto à pedra preta do rio, por motivo de nó na goela, no que foi respeitado. Mais de um mês ele freqüentou a barranca só e todo dia.
Até que uma tempestade arrasou o vilarejo.
Todos se apressaram na solidariedade, menos Zé Broa. Contam que ele teve iluminação de pescador durante o temporal. Nadou até a pedra no meio do rio e chamou pela sereia mulata, que não tardou a vir. Eles sorriram cúmplices, se beijaram amantes e abraçados mergulharam seus corpos em transe nas águas turvas do rio. O nosso bom mineiro, que nas artes do afeto era tido como parvo, arrancou o sutiã de ouro da sereia e se enferrujou de amor para sempre no seu coração de lata.(Por Lelo de Brito)

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3 Comentários

Arquivado em Arma Zen do Brito, Cultura, Varginha

3 Respostas para “Arma Zen do Brito: O pescador Zé Broa e a Sereia mulata

  1. Flávio

    Cara! Me lembrei da minha infância em Carmo. Sempre tinham histórias assim… chegou a me arrepiar!!

  2. Raissa

    Lí o primeiro texto, já tinha visto esse em seu blog. Coloca alguns inéditos pra nós, mas mesmo assim não poderia deixar de comentar. Texto perfeito, com uma riqueza de detalhes que me faz não parar de ler. Parabéns mais uma vez!

  3. Olá pessoal,

    Agradeço por visitarem a coluna. Voltem sempre e deixem seus recados e críticas.
    Raissa, na próxima semana teremos inéditos!

    Abraço fraterno,
    Renato.

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