Arma Zen do Brito: Separações, fidelidade

Sem você me pedir, lhe dou um conselho – lembrando que conselho bom é aquele que a gente não precisa seguir. Quando decidir voltar para casa mais cedo, ligue avisando. A falta deste cuidado já causou incontáveis tragédias na história da humanidade, encurtando vidas e relacionamentos que poderiam até mesmo resultar felizes.

E também porque uma das características da fidelidade amorosa é que não podemos exigí-la, ela é uma oferta que fazemos ou que o outro nos faz por opção. E não sendo assim, se é em nome do medo, da vaidade ou de outra forma de barganha que cultivamos a fidelidade, então tratamos de um aspecto da afetividade que não tem nada a ver com o amor: falamos das formas de relacionamento autorizadas pela sociedade em nosso tempo.

Há uma discussão muito franca sobre a fidelidade no filme “Separações”, de Domingos de Oliveira. Apesar do título, é uma estória sobre reconciliações. Embora narre a vida de um casal, o enredo conta o acordo de cada personagem consigo – donde nasce a possibilidade de reconciliação para o casal. Do começo ao fim os personagens são marionetes do amor, por isto se parecem muito com a gente. Diferente do que acontece nos filmes de amor romântico, onde a narrativa dá aos personagens a posse de um amor certeiro que leva ao final feliz. “Separações”, como nós, está em outra esfera.

Mas não se trata de um filme de aspiração realista. A carpintaria dramática da narrativa é elaboradíssima e não tenta repetir qualquer idéia sobre a vida. “Separações” é uma especulação profunda sobre os nossos tabus, como por exemplo, a cena em que Cabral, o protagonista, liga para o ex-amante da mulher para convidá-lo a ser amigo do casal, porque, afinal, “se aqueles que se amaram demais não puderem se tornar amigos, a vida fica muito chata.”

O filme continua a discussão sobre a revisão das formas de relacionamento afetivo autorizadas pela sociedade iniciada pelos jovens nos anos sessenta. Foram eles que ousaram imaginar, pela primeira vez, que a fidelidade, quanto mais absurda, canina se torna. E que também as mentiras são eloqüentes e reveladoras, fazem parte do amor como da vida.
Não nos esqueçamos de ligar quando voltarmos mais cedo para casa. E que os casais tenham a intimidade de falar livremente e sempre sobre a fidelidade, até que ela se torne um dos temas do amor, e deixar de ser mais um tabu. (Por Lelo de Brito)

Anúncios

6 Comentários

Arquivado em Arma Zen do Brito

6 Respostas para “Arma Zen do Brito: Separações, fidelidade

  1. Gogô

    Gostei do material, muito bem elaborado. Parabéns.

  2. Cineasta

    “Quando decidir voltar para casa mais cedo, ligue avisando.” Essa foi ótima, ri demais!!!

  3. ET DE VARGINHA

    PODIA ESCREVER UM ARTIGO SOBRE O ET DE VARGINHA!! OU MUDINHO DE VARGINHA!!

  4. Olá pessoal, tudo bem?

    Agradeço os comentários e apareçam sempre. Escreverei sobre o ET de Varginha em breve, ainda mais recebendo o pedido do próprio mito, né? Como não fazer? rs

    Abraço fraterno,

  5. Matheus

    Encurtando vidas!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkk Ri demais!!!

  6. Pingback: Arma Zen do Brito | Jornal Sul de Minas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s